Por Luelyn Jockymann
Os cães são animais gregários, ou seja, vivem em grupos e quando fogem de casa, sentem-se desamparados, aflitos e desprotegidos. Assim como crianças pequenas precisam de outra pessoa para lhes dar comida e abrigo, portanto, não vivem sem a presença humana. Este foi o resultado da domesticação dos lobos. Criamos, com o passar dos anos, uma espécie totalmente dependente de nós, tanto emocionalmente como fisicamente.
Isso significa que somos responsáveis pelo bem-estar e sobrevivência dos nossos cães. Quando um cão foge de casa, 90% das vezes é culpa do dono. Um quintal bem fechado, um portão com tranca, fazem parte do que chamamos de posse responsável. Além disso, cães machos tendem a fugir para marcar território, então eu recomendo castrá-los, com cerca de 10 meses de idade, para inibir tal comportamento.
Mas no fim de ano não são fugas normais que prevalecem. Nem na época dos temporais. Alguns cães sofrem de fobias de fogos ou sons altos. Nesse caso apresentam um medo exacerbado e irreal dos estouros, que para eles parece uma ameaça de vida real. Sentem que, se não fugirem, podem realmente morrer. Como muitos proprietários viajam nessas épocas de festas e férias, os cães ficam desprotegidos, sozinhos em casa, e em pânico. Fogem para procurar seus donos ou um local em que se sentiriam mais seguros. Nenhuma cerca vai prender um cão apavorado neste grau. A família, que deveria estar perto nesta hora, não está ali e ele, não tendo para quem pedir socorro, sai correndo sem rumo.
Existem alguns fatores que podem determinar para onde e quão longe o cão pode fugir, entre eles, o comportamento das pessoas na rua e a personalidade do animal. A maneira como reage a pessoas estranhas determina até onde ele irá chegar, por exemplo. Um cão manso e alegre, do tipo que abana a cauda para todo mundo, tem mais chance de parar de fugir assim que avista uma pessoa na rua. Esse tipo de cachorro normalmente é recolhido por alguém próximo ao local da fuga e, facilmente adotado, não irá vagar por muito tempo sem rumo.
Já os cães assustados evitarão contato humano inicialmente. Com o passar dos dias, por causa da fome, tendem a diminuir o medo de pessoas estranhas e procurarem comida perto das casas. Mas, como a atitude anti-social, muitas pessoas podem pensar que não tem dono ou que foram abandonados de propósito, porque passam muitos dias sem comer e sem um teto, desenvolvendo uma aparência de maus-tratos, magreza e doença. São cães que podem ficar meses vagando e mesmo assim ter um dono.
Os cães que têm fobia de pessoas, porque foram mal socializados quando filhotes, não saíram muito de casa, e são meio “caipiras”, têm maior probabilidade de serem mortos ou atropelados. Eles vão correr o mais longe que puderem, pois tudo e todos vão parecer ameaçadores. A chance de serem recuperados é muito pequena.
A situação em que ocorreu a fuga também é importante para avaliar a possibilidade de resgate. Se o cão escapou por um portão mal fechado, cavou um buraco na cerca, ou pulou o muro, provavelmente sentiu um cheiro e decidiu segui-lo. Não irá muitas quadras para frente, com certeza, e tende a voltar logo. Os animais que tiveram um ataque de pânico sempre vão correr alguns quilômetros antes de cansarem ou encontrarem abrigo.
O clima também determina o quão longe o cachorro vai andar. Num dia muito quente, ou um temporal, ele vai percorrer muito menos terreno que num dia mais fresco ou à noite.
A aparência do cão vai determinar se ele será resgatado mais rápido ou ignorado. As pessoas tendem a salvar cães de raça pura e pequenos, que são mais fáceis de colocar no colo. Um Pit Bull perdido provavelmente não vai ser levado para casa devido à sua fama de agressivo. Da mesma forma um vira-lata andando no meio fio será ignorado, pois as pessoas podem pensar que se trata de um cão que mora nas redondezas e está dando uma volta; ou que realmente não tem dono.
Mas, para recuperar um cão é importante prestar atenção em alguns erros fundamentais que as pessoas cometem. Não dá para sentar e ficar esperando para ver se o cão volta ou alguém acha e devolve. As primeiras horas são muito importantes e devem ser feitas buscas em mutirão. É quando o cão realmente está por perto. Perguntar para todo mundo na rua se viu o fujão ajuda a dar pistas do itinerário que este adotou.
Deixe avisado que perdeu o cão em todas as clínicas veterinárias, pet shops e hospitais veterinários da cidade. Não dá para ficar limitado ao próprio bairro. Eventualmente o cão terá que passar por uma consulta, tosa ou banho.
Para quem encontra um cão: todo cachorro de raça perdido tem dono, que deve estar desesperado atrás dele. Ele pode até ser recolhido, mas é melhor tentar achar o proprietário. Caso seja um vira-lata, o cão poderia estar dando uma voltinha perto de casa e ter dono.
Todos os cães se acostumam a novos lares, desde que bem tratados, mas jamais esquecem seu lar antigo. Podem, inclusive, desenvolver problemas sérios de ansiedade.
Luelyn Jockmann, médica veterinária especialista em comportamento de cães e gatos: luelyn@terra.com.br